sábado, 25 de agosto de 2018

Tradições dos imigrantes ucranianos são preservadas no Paraná

O município de Antônio Olinto, no Paraná, preserva as tradições dos imigrantes ucranianos que chegaram ao país no final do século XIX. Boa parte da população trabalha no campo e tem, na agricultura familiar, sua principal fonte de renda.


PARANÁ - FRUTOS DE UMA ARQUITETURA ABENÇOADA


Paraná tem 200 igrejas ucranianas de madeira, mas muitas padecem por falta de manutenção e porque nem sempre são vistas como um patrimônio cultural a ser preservado. Igreja ucraniana de Antonio Olinto: tombada pelo patrimônio estadual e restaurada recentemente com recursos federais.

ANTÔNIO OLINTO - PR


Igreja ucraniana de Antonio Olinto: tombada pelo patrimônio estadual e restaurada recentemente com recursos federais.

Obra de arte não tem religião. Mas na prática não é o que parece. Pelos quatro cantos do país é fácil encontrar igrejas que estão a ponto de ruir. Diria o arcebispo de Juiz de Fora, dom Gil Antonio Moreira, presidente da comissão de bens culturais da regional Leste, que as casas de Deus representam 60% das obras artísticas do país. O problema é que muitas estão abandonadas porque esbarram em uma questão de crença: quem não é religioso normalmente não se interessa em saber quais foram as técnicas construtivas aplicadas nesses verdadeiros templos arquitetônicos. E pior. Há padres rezando por aí que igrejinha de madeira é coisa de pobre: quando existe dinheiro, ele não é usado na conservação, mas com o intuito de derrubar tudo e construir a sonhada igreja de alvenaria, mais moderna. “Antes ainda existia a aura de que se estragar é pecado. Hoje nem isso”, afirma o arquiteto Key Imaguire, que estuda a arquitetura de madeira no estado.

É no interior do Paraná que estão escondidas as verdadeiras relíquias de madeira, muitas desconhecidas por grande parte dos próprios paranaenses. Ao todo, são cerca de 200: 25 delas foram catalogadas em um dossiê arquitetônico que virou livro, intitulado Igrejas Ucranianas: arquitetura da imigração no Paraná.

O estudo desta arquitetura é uma lição de herança cultural, da relação do homem que chegou por aqui (no caso os ucranianos) com o ambiente que encontrou, com a matéria-prima que necessitava para reconstruir sua identidade. Não por acaso, três das igrejas construídas por esses imigrantes já têm tombamento estadual e duas estão com processo de tombamento federal. “Não sei se o tombamento é a melhor alternativa, porque pode engessar. É lógico que se for tombado e vir o recurso [como em Antonio Olinto], ótimo. Caso contrário, é importante trabalhar com a comunidade para explicar a importância da manutenção e do que não deve ser feito, para que não se cometam besteiras durante a reforma”, explica Key.


ACESSO AOS TEMPLOS UCRANIANOS 


Parte interna dos templos ucranianos é cheia de decorações feitas com estêncil.

É difícil chegar a grande parte dessa igrejas, o que de certa forma justifica a falta de prestígio. Elas ficam em áreas rurais e o acesso normalmente se dá por meio de uma estrada de barro vermelho que vira lamaçal em dias de chuva. O pior é que as antigas famílias, que cuidavam desse patrimônio, estão sumindo. “Certas comunidades são muito pequenas. Em uma delas, havia quatro famílias que cuidavam da igreja. Os filhos casaram, foram embora e não há mais pessoas da comunidade para fazer a manutenção”, diz Key Imaguire. “Quando passamos pelo interior para fazer o levantamento, um grupo de senhoras nos perguntou quando o padre iria voltar para rezar a missa. Ou seja, nem o sacerdote pertence mais ao local.”

CAMPANÁRIOS



Os campanários são obras de arte e seguem linha arquitetônica da igreja.

Grande parte das igrejas foi construída no século 19: elas normalmente têm uma torre sobre os telhados, com base octogonal e que acaba com uma cúpula que parece a silhueta de uma pera. “A cúpula acabou virando o símbolo dos ucranianos no Brasil”, explica a arquiteta Marialba Gaspar Imaguire, uma das autoras do livro. A cúpula, segundo Marialba, é quase sempre aberta na parte que fica no interior da igreja, para seguir a lógica de canalizar as orações ao céu. “É uma arquitetura semelhante à das igrejas russas, mas os próprios ucranianos negam isso, provavelmente por causa da ocupação russa na Ucrânia”, afirma. Algumas igrejas chegam a ter pequenas varandas na entrada.

PITANGA - PR


Igreja de São Pedro e São Paulo, perto de Pitanga: escondida no interior do Paraná.

As três mais antigas do Paraná são as igrejas de São Miguel de Arcanjo (em Dorizon), Nossa Senhora da Imaculada Conceição (Antônio Olinto) e Espírito Santo (General Carneiro). “Percebe-se nesses primeiros templos a perpetuação no Paraná da constituição do sistema construtivo da Ucrânia”, diz Marialba.

Internamente a obra de arte também se repete. As igrejas têm pinturas bastante coloridas, feitas com a técnica estêncil, muitas com padrões geométricos que mais parecem bordados e pinturas de pêssankas. As pinturas podem ainda representar tapetes, cenas do cotidiano ou buscar reflexões espirituais.

Simbologia


A iconostáse é um dos artigos de alto custo das igrejas ucranianas e acaba tendo destaque somente nas mais importantes, como a de São Josafat, em Prudentópolis. É um painel com ícones de santos que ganhou importância no período Renascentista e teve seu ápice durante o período barroco, quando foram trabalhadas com entalhes e cores douradas. Outras preciosidades são os campanários. A arquitetura tem igual importância, pois se comunica de certa forma com a da igreja, mas normalmente menor, com uma cobertura que protege os sinos.

GENERAL CARNEIRO - PR


General Carneiro tem a Igreja do Espírito Santo: outra relíquia.

Como as igrejas ficam “escondidas”, já se pensou em criar um roteiro turístico para divulgá-las. Mas, enquanto o projeto não sai do papel, pelo menos o levantamento feito pelos arquitetos “mudou o conceito dos padres, que passaram a valorizar mais as igrejas de madeira e desistiram da ideia de construir uma de alvenaria no lugar”, de acordo com Key. A solução de engessar a arquitetura com cimento só aconteceu na Igreja de São Pedro de São Paulo, em Irati, porque ela estava para ruir: a comunidade decidiu fazer o lado de fora de alvenaria e deixar a parte interna intacta, com as paredes de madeira.

Apesar do rico patrimônio encontrado no Paraná, é na Bahia e em Minas Gerais que estão as principais arquiteturas religiosas do Brasil. Mesmo assim, a degradação também existe nesses estados.

MALLET - PR


Em Mallet está a Igreja de São Miguel Arcanjo: linha tradicional com cúpula central.

O Instituto do Patrimônio His­tórico e Artístico Nacional (Iphan), ligado ao Ministério da Cultura, diz que a atual política é a de se voltar para a arquitetura religiosa de outras localidades do país. Um exemplo é a igreja de Antonio Olinto no Paraná: a primeira do estado a receber verbas federais para o seu restauro.

Serviço
O estudo das 25 igrejas está no livro Igrejas Ucranianas: arquitetura da imigração no Paraná, dos arquitetos Fábio Domingos Batista, Sandra Magalhães Corrêa e Marialba Gaspar Imaguire. A obra é do Instituto Arquibrasil. Mais informações pelo telefone (41) 3252-7634.

Fonte original da notícia

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A arte cheia de significados das pêssankas



O ovo, um dos símbolos mais importantes e conhecidos da Páscoa, representa vida. Uma das tradições mais bonitas e antigas durante este período envolve justamente a entrega do ovo para familiares e amigos.

Mas não é um simples ovo. Ele traz mensagens como paz, harmonia, amor e saúde, além de ser uma verdadeira obra de arte. São as pêssankas, originárias da Ucrânia e que hoje não ficam mais restritas aos ucranianos e seus descendentes. Pessoas de todas as religiões e origens se interessam pelas pêssankas, que surgem a partir de um trabalho artesanal delicado e trabalhoso.

Mara Bressan Kilmczuk, integrante da Associação de Artesãos de Pêssankas e Artesanato Ucraniano do Paraná, se dedica a essa arte durante todo o ano. Ela deixou o emprego para fazer pêssankas. Nesta época do ano os pedidos de encomendas crescem radicalmente.

“Essa é uma tradição milenar. Na Ucrânia, onde o inverno dura nove meses, as mulheres ficavam dentro de casa e havia criação de patas. Elas começaram a pintar os ovos e isso passou a ter um grande significado”, explica.

Cada região da Ucrânia tem um modo de pintar ou de favorecer as cores das pêssankas. Kilmczuk adota a técnica da região de Kiev. Podem ser utilizados ovos de codorna, galinha, gansa, ema e avestruz.

Os desenhos na casca do ovo são feitos com cera de abelha. Para conseguir os detalhes das cores, as pêssankas são mergulhadas em tinta especial e importada. Uma cobertura de cera de abelha é aplicada onde se deseja preservar a cor. Depois, os ovos passam por outras tintas.

Em cada etapa eles precisam secar naturalmente. Após esse processo, as pêssankas são lavadas e envernizadas. Uma pêssanka feita a partir de um ovo de galinha demora entre 4 e 5 horas para ficar pronta.

Kilmczuk conta que cada desenho e cada cor na pêssanka possui um significado. O amarelo representa sabedoria e prosperidade; o laranja, energia; o vermelho, vitalidade; azul, paz e harmonia; branco, pureza; lilás, transição; marrom, mãe terra.

O desenho de uma estrela significa saúde, por exemplo. Cada traço também tem uma representatividade. Um círculo dividido refere-se à polaridade e à dualidade. De acordo com Kilmczuk, quem compra para dar de presente e pela simbologia deve levar as pêssankas para benzer.

Haverá cerimônias de bênçãos hoje nas igrejas ucranianas e no Memorial Ucraniano, no Parque Tingui, em Curitiba. “Muitas pessoas acreditam na energia que as pêssankas têm. Por isso, somente quem ganhou a pêssanka pode mexer nela. Qualquer pessoa pode participar das bênçãos”, afirma.


Fonte: tribunapr

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